Mulher do Ifood

 Hoje eu acordei com frio. 

Lembro de ter visto o relógio marcar 1:58 antes de não conseguir abrir mais os olhos pra nada. E quando acordei, tremendo e rígida, com as penas suadas que ainda estavam cobertas por um cobertor pesado, lutei para puxá-lo para cima e me esquentar. Eram 5:43, e meu marido não estava ali. Sinto a falta dele descansando ao meu lado a noite. Me aquecer no seu corpo. Sentir seu cheiro. O cansaço havia me alcançado antes que pudéssemos deleitarmo-nos. Sua falta parece sempre ser sentida pelo meu corpo adormecido. 

Levanto ainda despertando, e ele da sala diz não ter conseguido dormir mais uma vez. E eu triste, constatando que havia dormido sem seu sexo, e por pura exaustão, coisa de 4 horas, penso. Preciso entregar.

Com os músculos da face ainda desorientados, murmurei um "tô com frio", e volto para o quarto, coloco uma blusa para ir ao banheiro. Ele volta para o quarto e me beija os lábios me abraçando e dizendo bom dia. Ainda chove lá fora enquanto olho pelas grades da janela. Novamente e com pesar penso. Preciso entregar. 

Ao sair do banheiro, já na cozinha, aqueço um resto de café de ontem no micro-ondas. Volto para o quarto onde meu marido já se encontra sentado na cama com suas pernas cobertas e seu celular na mão. Ele reclama que a bateria esta em 7% e acabando. Certamente virou a madrugada assistindo várias coisas. Eu vou para meu baú de nanicolinas e percebo com culpa que não tomei meus comprimidos ontem. Tomo a dose dobrada com o café, mesmo não sendo o indicado. Afirmando para mim mesma, preciso entregar.

Volto para a cama acendendo meu último cigarro e pensando em como conseguir mais 1 real para completar mais um maço de cigarro. O descanso em casa e bom mas falta dinheiro. Ambos desempregados, mantenho o foco de que estar diminuído o cigarro como tem sido nos últimos dias, e um passo para finalmente ter o controle de parar, e de fato o é. Mas ao final do cigarro sinto que ainda não estou satisfeita, e sei que ele também não. Nunca vamos estar. Preciso entregar.

Conversamos algumas horas sobre os nossos traumas e como isso interfere de forma diferente em nossas vidas. A chuva aperta. Me deito sentindo que estou perdendo para meus olhos novamente e viro de costas para ele. Que por magnetismo me abraça, damos as mãos e eu me sinto completa de novo por 5 segundos. E penso enquanto adormeço. Preciso entregar.

Preciso entregar o iFood para receber algum dinheiro extra na quarta-feira que vem. Preciso entregar currículo, pois desde dezembro não sou mais chamada para entrevistas. Preciso entregar resultados. Cursos. Ideias. Noticias. Passibilidade... e adormeço novamente, esmagada pelo capitalismo alheio que preciso entregar. E sigo consciente, e que em 29 de janeiro, dia da visibilidade trans. De 5 em 5 eu penso. e quando despertar novamente, continuarei pensando... 

Preciso entregar.

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